terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Tim

  Harry Markham e sua turma chegaram ao trabalho exatamente às sete da manhã daquela sexta-feira. Harry e o contramestre Jim Irvine ocupavam a cabine da caminhoneta e os três operários estavam na parte traseira, aberta, do veículo, empoleirados em qualquer canto onde conseguissem um espaço para seus traseiros. A casa que reformavam localizava-se na praia norte de Sydney, no subúrbio de Artarmon, logo após o descampado desolado dos barreiros da olarias. Não se tratava de um trabalho importante, nem mesmo para um construtor sem grandes pretensões como Harry. Tudo quanto deveria realizar era revestir o bangalô de tijolos vermelhos com estuque e acrescentar um puxado à varanda de trás. O tipo de trabalho que Harry recebia de braço abertos, de vez em quando, pois preenchia as lacunas entre as empreitadas maiores.
 Se aquela manhã de sexta-feira prognosticava alguma coisa, o fim de semana deveria ser de calor e muito sol. Os homens saíram da caminhoneta conversando em voz baixa, penetraram na alameda  de acesso lateral, sombria e ladeada por árvores, e mudaram as roupas sem o menor constrangimento ou vergonha.
 Após terem vestido as roupas de trabalho, dirigiram-se para os fundos da casa exatamente no instante em que a solteirona caminhava desajeitadamente pelo quintal, vestindo um roupão de banho surrado e desboltado, de chenilha rosa, da década de 50, carregando com maior cuidado um urinolde porcelana, decorado com flores. À cabeça um cintilante amontoado de pinças para marcar ondas, também da mesma época. Para Mrs. Emily Parker... nada de rolos modernos, muito obrigada. O terreno posterior era em suave declive rumo à goela do despenhadeiro de saibro que, antigamente, servira como manancial de uma grande quantidade de tijolos de Sydney; atualmente, era o lugar apropriado para a velha senhora esvaziar todas as manhãs o seu penico, uma vez que se obstinava em usá-lo todas as noites fazendo questão de não abandonar seus costumes rurais.
 Enquanto o conteúdo do urinol voava, formando um arco sólido de tonalidade âmbar-clara no fundo saibroso, ela virou a cabeça e observou, com impertinência, os homens seminus.
 - Dia, Miz Parker! - gritou Harry em sua direção.
- Acho que terminarei isto ainda hoje!
 - E já não é sem tempo, também, sua cambada de preguiçosos! - esbravejou a velha senhora enquanto subia o aclive do quintal, totalmente à vontade. - As  coisas que fui forçada a aguentar por culpa de vocês! Ainda ontem à noite, Miss Horton queixou-se porque seus gerânios cor de rosa, premiados, estavam totalmente cobertos de pó de cimento e a sua avenca ficou amassada quando algum bobalhão atirou um tijolo por cima da cerca.
 - Se Miss Horton é essa solteirona com cara de passa, daí do lado, sou capaz de apostar que a avenca não ficou aos pedaços apenas ontem, mas que já morreu há muitos anos por falta de fertilizantes! - murmurou Mick Devine para Bill Naismith.
A velha senhora, continuando a reclamar, desapareceu casa adentro com o urinol vazio nas mãos. Alguns segundos mais tarde, os homens ouviram os ruídos produzidos por Miss Emily Parker ao lavar o recipiente no banheiro da varanda dos fundos seguidos pela descarga do vaso sanitário e um barulho de porcelana cantando no momento em que pendurava o urinol no gancho, logo acima do mais tradicional repositório de dejetos humanos.
 - Nossa, Henry, aposto como o capim está bem verdinho lá embaixo, no fundo do saibro! - exclamou Harry para um companheiro sorridente.
 - É de espantar que ela não tenha ainda inundado tudo aquilo há muito tempo! - replicou Bill, por entre risinhos.
 - Ora, se querem saber, ela não é nada viva - disse Mick. - Nos dias de hoje, nesta era, tendo duas latrinas em casa, ela ainda continua fazendo pipi na guzunda.
 - Na guzunda? - repetiu Tim Melville.
 - È, xará, na guzunda! Uma guzunda é uma coisa que guzunda a cama todas as noites e na qual você enfia o pé aquecido todas as vezes que se levanta apressado - esclareceu Harry. A seguir, olhou para o relógio. - Creio que o caminhão de concreto estará chegando a qualquer momento. Tim, vá lá para a frente e espere por ele. Tire o carrinho de mão da caminhoneta, o maior, e comece a nos trazer a massa assim que o caminhão aparecer ,entendeu?
 Tim Melville sorriu, fez um sinal afirmativo com a cabeça e afastou-se rápido.
 Mick Devine, observando-o ao afastar-se com um olhar vago e ainda refletindo sobre as excentricidades das velhas senhoras, estourou na gargalhada.
 - Oh, é verdade! Acabei de imaginar uma coisa ótima! Escutem, companheiros, esta manhã, na hora da merenda, tratem de me seguir e talvez cosigamos ensinar a Tim uma ou duas coias a respeito das guzundas ou coisas desse tipo. ( trecho do livro Tim )

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